INSTITUTO BÍBLICO AUGUSTO ARAÚJO
A IMPRENSA CRISTÃ EM MATO GROSSO E O PAPEL DO PENNA EVANGÉLICA:
CULTURA, FÉ E INFLUÊNCIA DOS PERIÓDICOS CRISTÃOS NO INÍCIO DO SÉCULO XX
Professor: Manoel G. Delgado Junior
Aluno: Pablo Henrique Soares Lacerda
INTRODUÇÃO
O início do século XX representou um período de profundas transformações para a sociedade brasileira. A consolidação da República, o crescimento urbano, a ampliação dos meios de comunicação e o surgimento de novos debates políticos e culturais modificaram significativamente a vida nacional. Nesse contexto, os jornais assumiram papel central na circulação de informações e ideias. Entre eles, destacaram-se os periódicos católicos e reformados, que atuaram não apenas como veículos informativos, mas também como instrumentos de formação moral, religiosa e cultural.
Em Mato Grosso, a imprensa cristã da época desempenhou papel importante na construção do pensamento reformado regional. Jornais católicos e protestantes contribuíram para a divulgação de valores cristãos, fortalecimento institucional das igrejas e participação nos debates publicos e sociais da época. O estudo desses periódicos nos permite compreender aspectos relevantes da história e cultural brasileira aqui em Mato Grosso.
- O SURGIMENTO DA IMPRENSA CRISTÃ NO BRASIL
A imprensa cristã brasileira desenvolveu-se paralelamente à expansão da imprensa nacional. Durante o século XIX, a Igreja Católica utilizou jornais e revistas como ferramentas de formação religiosa e defesa doutrinária. Com a separação entre Igreja e Estado após a Proclamação da República, as instituições religiosas passaram a investir ainda mais em seus próprios meios de comunicação.
Ao mesmo tempo, as missões protestantes vindas da Europa e dos Estados Unidos encontraram na imprensa um instrumento eficiente de evangelização. A distribuição de jornais, folhetins e revistas permitia alcançar regiões distantes e fortalecer comunidades recém-formadas. Dessa forma, a palavra impressa tornou-se elemento fundamental para a expansão do cristianismo no país.
2. A IMPRENSA CRISTÃ EM MATO GROSSO
Embora distante dos principais centros econômicos do Brasil, Mato Grosso possuía relevante atividade intelectual. Cuiabá destacava-se como polo cultural regional, reunindo professores, escritores, religiosos e autoridades públicas. A circulação de jornais contribuía para a formação de uma esfera pública local.
Entre os periódicos mais importantes encontrava-se o jornal A Cruz, ligado à Arquidiocese de Cuiabá. O periódico publicava artigos religiosos, reflexões morais, notícias, poesias e comentários sobre acontecimentos locais. Sua atuação ultrapassava o ambiente eclesiástico, alcançando diferentes setores da sociedade.
A imprensa cristã mato-grossense ajudava a construir valores sociais, influenciava comportamentos e promovia debates sobre educação, família, moralidade e cidadania. Dessa maneira, os periódicos religiosos exerciam papel significativo na vida pública regional.
- O PAPEL CULTURAL DOS PERIÓDICOS CRISTÃOS
Os jornais cristãos possuíam grande influência cultural porque o acesso à informação era limitado. Em muitas localidades, eles constituíam uma das principais fontes de leitura disponíveis à população. Consequentemente, exerciam funções educativas e formativas.
Esses periódicos estimulavam a leitura, divulgavam literatura, incentivavam a produção intelectual e promoviam reflexões sobre temas sociais. Frequentemente publicavam poemas, ensaios, contos e artigos de opinião, tornando-se espaços importantes para a circulação da cultura escrita.
Além disso, contribuíam para a preservação de valores considerados fundamentais pelas comunidades cristãs, fortalecendo a identidade religiosa e cultural de seus leitores.
Uma das principais características da imprensa cristã era sua preocupação com a formação moral da sociedade. Os jornais abordavam temas relacionados à família, educação dos filhos, ética, comportamento social e vida espiritual.
Os articulistas buscavam orientar os leitores a partir dos princípios cristãos, defendendo virtudes como honestidade, disciplina, responsabilidade e solidariedade. Essa atuação era vista como uma missão educativa voltada para o bem-estar da sociedade.
- O PENNA EVANGÉLICA E A IMPRENSA PROTESTANTE
O crescimento do protestantismo brasileiro estimulou o surgimento de diversos periódicos evangélicos. Entre eles, destacou-se o Penna Evangélica, importante instrumento de comunicação e ensino religioso.
O jornal tinha como objetivos divulgar a fé protestante, promover o estudo bíblico, fortalecer as igrejas locais e apresentar respostas às críticas recebidas de outros grupos religiosos. Sua circulação contribuiu para consolidar a identidade protestante em um país historicamente marcado pela tradição católica.
Os textos do Penna Evangélica apresentavam linguagem acessível, forte fundamentação bíblica e preocupação pastoral. Os artigos buscavam explicar conceitos teológicos de maneira compreensível ao público geral.
Entre os temas mais frequentes estavam salvação, arrependimento, graça divina, autoridade das Escrituras e vida cristã. Essa abordagem favorecia a aproximação entre o periódico e seus leitores.
5. A DISPUTA RELIGIOSA NOS JORNAIS
Os periódicos da época também serviam como espaços de debate religioso. Católicos e protestantes utilizavam seus jornais para defender suas crenças, responder críticas e apresentar argumentos teológicos.
Questões relacionadas à autoridade da Igreja, interpretação bíblica, sacramentos, culto aos santos e práticas religiosas frequentemente apareciam nas páginas desses periódicos. Esses debates revelam a importância da imprensa como instrumento de influência intelectual e religiosa.
- DESIGN E ESTÉTICA DOS PERIÓDICOS
A apresentação visual dos jornais também merece destaque. Mesmo com recursos gráficos limitados, muitos periódicos possuíam tipografias elaboradas, ilustrações e organização cuidadosa das páginas.
A estética dos jornais transmitia credibilidade e demonstrava preocupação com a qualidade editorial. Além disso, os anúncios comerciais presentes em suas páginas oferecem importantes informações sobre a economia e os costumes da época.
- O PERIÓDICO COMO INSTRUMENTO DE PODER
A Pena Evangélica, ultrapassava a simples divulgação de notícias religiosas. O periódico atuava como um verdadeiro instrumento de poder dentro da comunidade protestante, influenciando comportamentos, fortalecendo convicções doutrinárias e moldando a forma como seus leitores compreendiam a sociedade, a política, a moral e a própria religião.
Fica evidente que os líderes responsáveis pela publicação utilizavam o jornal como um meio de orientar a vida dos fiéis. Os artigos não apenas transmitiam informações, mas ensinavam como o cristão deveria agir, pensar e interpretar os acontecimentos ao seu redor. Dessa forma, o jornal exercia uma influência significativa sobre a construção da identidade protestante em Cuiabá.
Em uma época em que o acesso à informação era limitado e os meios de comunicação eram escassos, possuir um veículo impresso representava uma importante forma de exercer influência social. Por meio das páginas de A Pena Evangélica, a Igreja Presbiteriana conseguia alcançar seus membros regularmente, reforçando seus ensinamentos e consolidando sua presença em uma sociedade predominantemente católica. O jornal funcionava como uma extensão do púlpito, levando a mensagem da igreja para dentro dos lares dos leitores.
Outro aspecto que me chamou atenção foi a maneira como determinados temas eram apresentados. Questões doutrinárias, morais e sociais eram frequentemente abordadas a partir de uma perspectiva específica, buscando persuadir os leitores e fortalecer a visão de mundo defendida pela igreja. Isso demonstra que o jornal não era um veículo neutro, mas um espaço de produção e circulação de ideias, valores e crenças que contribuíam para a formação de uma consciência coletiva entre os protestantes.
Além disso, o periódico servia como instrumento de legitimação da liderança religiosa. Os textos publicados pelos pastores e dirigentes conferiam autoridade às suas interpretações bíblicas e orientações espirituais. Dessa maneira, o jornal ajudava a estabelecer e manter relações de autoridade dentro da comunidade, reforçando o papel dos líderes como intérpretes legítimos da fé cristã.
Também é possível perceber o uso do jornal como ferramenta de mobilização social e religiosa. Convites para cultos, reuniões de oração, campanhas evangelísticas e atividades da igreja aparecem constantemente nas edições analisadas. Esses anúncios demonstram como o periódico era utilizado para organizar a vida comunitária e incentivar a participação dos fiéis nas atividades promovidas pela instituição religiosa.
Por fim, através da palavra escrita, A Pena Evangélica ajudou a construir valores, fortalecer identidades cristã e consolidar a presença protestante em Cuiabá. Nesse sentido, o periódico pode ser entendido como uma importante ferramenta de poder simbólico, capaz de formar opiniões, orientar comportamentos e contribuir para o crescimento e fortalecimento do protestantismo na região.
- O LEGADO HISTÓRICO DO PENNA EVANGÉLICA
Ao ter contato com os exemplares do jornal A Pena Evangélica, uma das primeiras impressões que tive foi a sensação de estar observando uma janela para o passado. Diferente de livros e artigos que analisam a história do protestantismo anos depois dos acontecimentos, esses jornais me permitiram enxergar diretamente como os protestantes de Cuiabá pensavam, escreviam e viviam sua fé naquele período.
Enquanto examinava as páginas, percebi que não estava diante apenas de um boletim dominical, mas de um verdadeiro registro da vida cotidiana da comunidade protestante cuiabana. Cada texto, anúncio, reflexão e notícia revela um pouco da realidade enfrentada por aqueles cristãos que buscavam consolidar a presença do protestantismo em uma região historicamente marcada pela tradição católica.
E a característica que chama mais a atenção é a forte ênfase dada à pregação do evangelho. Logo no cabeçalho do jornal aparece a frase “Nós pregamos a Cristo”, o que demonstra claramente qual era o propósito central da publicação. Em praticamente todas as edições observadas, os artigos procuravam conduzir o leitor à reflexão espiritual, enfatizando temas como salvação, arrependimento, fé, oração e vida cristã.
Os autores relacionavam a fé cristã com os acontecimentos do mundo. Nas edições publicadas em 1944, por exemplo, em pleno contexto da Segunda Guerra Mundial, é possível notar uma preocupação constante com a paz e com o sofrimento humano causado pelos conflitos. Isso mostra que os protestantes cuiabanos não estavam isolados dos acontecimentos internacionais, mas buscavam interpretá-los à luz das Escrituras.
Embora muitas expressões sejam diferentes das que usamos atualmente, é possível perceber a paixão e a convicção dos autores ao escreverem. Em diversos momentos, tive a impressão de estar ouvindo a voz dos pastores e líderes daquela época, preocupados em fortalecer a fé de seus membros e em alcançar novos leitores com a mensagem do evangelho.
Além das reflexões teológicas, os jornais registram informações sobre cultos, reuniões de oração, escola dominical e outras atividades da igreja. Esses detalhes ajudam a reconstruir o cotidiano da comunidade protestante e mostram que a igreja estava ativamente envolvida na formação espiritual de seus membros. Para mim, esses registros foram especialmente importantes porque demonstram que o crescimento do protestantismo em Cuiabá não aconteceu apenas através da pregação pública, mas também por meio da construção de uma vida comunitária organizada e constante.
Outro detalhe interessante foi a presença de anúncios comerciais e informações sobre a cidade. Isso me levou a compreender que A Pena Evangélica não servia apenas como um instrumento religioso, mas também como um meio de comunicação entre os membros da comunidade. Dessa forma, o jornal ocupava um espaço relevante na vida social dos protestantes cuiabanos.
Ao analisar esse material, compreendi que o jornal A Pena Evangélica foi muito mais do que uma publicação religiosa. Ele foi um instrumento de evangelização, de formação doutrinária e de fortalecimento da identidade protestante em Mato Grosso. Mais do que isso, suas páginas preservam as vozes, preocupações, esperanças e convicções de homens e mulheres que contribuíram para a consolidação do protestantismo em Cuiabá. Por essa razão, considero esse periódico uma das fontes mais valiosas para compreender a história da inserção protestante na região durante a primeira metade do século XX.
- IDEALIZADOR E COLABORADOR (SANTOS, 2010)
Entre os personagens mais importantes da história do jornal A Pena Evangélica, destacam-se o Rev. Felipe Landes e o Rev. Augusto José de Araújo, cujas contribuições foram fundamentais para a criação, desenvolvimento e consolidação do periódico como instrumento da imprensa cristã em Mato Grosso.
O Rev. Felipe Landes foi o principal idealizador de A Pena Evangélica. Missionário presbiteriano atuante em Cuiabá, percebeu a necessidade de um veículo de comunicação capaz de divulgar os princípios da fé reformada, promover a evangelização e oferecer formação doutrinária aos fiéis. Em 1925, liderou a fundação do jornal e viabilizou sua impressão, trazendo equipamentos que permitiram a produção do periódico na capital mato-grossense. Além disso, participou ativamente da redação de artigos e editoriais, utilizando o jornal como meio de defesa da fé protestante e de diálogo com a sociedade cuiabana da época.
Por sua vez, o Rev. Augusto José de Araújo desempenhou papel relevante na continuidade do trabalho iniciado por Landes. Vinculado à Igreja Presbiteriana em Cuiabá, assumiu posteriormente a função de redator de A Pena Evangélica, contribuindo para a manutenção e expansão da circulação do periódico. Sua atuação foi importante para que o jornal permanecesse como uma referência da imprensa cristã protestante no estado, fortalecendo a divulgação das atividades da igreja e a propagação dos valores reformados.
Dessa forma, pode-se afirmar que Felipe Landes foi o grande idealizador e fundador de A Pena Evangélica, enquanto Augusto José de Araújo destacou-se como colaborador e continuador desse projeto, contribuindo para sua consolidação como um dos mais importantes veículos da imprensa cristã em Mato Grosso durante as primeiras décadas do século XX.
CONCLUSÃO
Ao longo desta pesquisa, foi possível compreender que a inserção do protestantismo em Cuiabá não ocorreu apenas por meio da atuação de missionários, da organização das igrejas ou da realização de cultos, mas também através de instrumentos de comunicação que contribuíram significativamente para a difusão da fé reformada. Entre esses instrumentos, o jornal A Pena Evangélica destacou-se como um importante veículo de evangelização, formação doutrinária e fortalecimento da identidade protestante na região.
A análise dos exemplares permitiu perceber que o periódico desempenhava múltiplas funções dentro da comunidade. Além de transmitir ensinamentos bíblicos, ele orientava comportamentos, promovia atividades religiosas, divulgava eventos e estabelecia uma conexão constante entre a igreja e seus membros. Dessa forma, o jornal tornou-se uma ferramenta estratégica para a consolidação do protestantismo em uma sociedade marcada pela predominância da tradição católica.
Além da relevância específica de A Pena Evangélica, esta pesquisa também permitiu compreender a dimensão da atuação da imprensa protestante no Brasil durante o início do século XX. Segundo registros disponíveis na Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional, foi possível identificar que, entre as décadas de 1920 e 1930, ao menos 29 periódicos protestantes encontravam-se registrados e em circulação no país. Esse dado demonstra que a utilização da imprensa não era uma iniciativa isolada da Igreja Cristã Presbiteriana de Cuiabá, mas fazia parte de uma estratégia mais ampla adotada pelas denominações protestantes para divulgar suas doutrinas, fortalecer suas comunidades e ampliar sua influência na sociedade brasileira. Nesse contexto, A Pena Evangélica representou a expressão regional de um movimento nacional que reconhecia na palavra impressa uma poderosa ferramenta de evangelização, educação religiosa e consolidação institucional.
Portanto, o estudo de A Pena Evangélica evidencia que a expansão do protestantismo em Cuiabá foi resultado não apenas da pregação nos púlpitos, mas também da circulação de ideias por meio da imprensa cristã. As páginas desse periódico preservam parte importante da memória religiosa mato-grossense e revelam como a comunicação impressa contribuiu para a formação da identidade protestante local.
REFERÊNCIAS
A CRUZ. Cuiabá: Liga Católica da Arquidiocese de Cuiabá. Edições de 1910 a 1928.
PENNA EVANGÉLICA. Periódico protestante brasileiro. Edições do início do século XX.
BIBLIOTECA NACIONAL DO BRASIL. Hemeroteca Digital Brasileira.
SANTOS, Sérgio Ribeiro. A inserção do protestantismo em Cuiabá na Primeira República. Cuiabá, 2010.
UM SÉCULO DE AÇÃO PRESBITERIANA EM MATO GROSSO. Maio de 2013. Disponível em: https://centenariomt.blogspot.com/2013/05/.
UM SÉCULO DE AÇÃO PRESBITERIANA EM MATO GROSSO. Trajetória Presbiteriana em Mato Grosso III. Disponível em:
https://centenariomt.blogspot.com/2013/07/trajetoria-presbiteriana-em-mato-grosso.html.
LANDES, Felipe. Dom Aquino: imperialismo e protestantismo. Cuiabá: Tipografia da Penna Evangelica, 1928. file:///C:/Users/Admin/Downloads/eduufgd,+Art+8+-+Carlos+Barros.pdf
DELGADO JÚNIOR, Manoel Gonçalves. Biografia – Augusto Araújo. Horizontes Verticais, 2025. Disponível em: https://www.horizontesverticais.com.br/2025/03/biografia-augusto-araujo.html.