A Filosofia Natural, ou ciência natural, como queiram, começou a se destacar e passou a ter vida própria e independente no início da era moderna. No início dessa era, a ciência natural cresceu dentro dos círculos acadêmicos, descendo posteriormente suas ideias para a cultura popular e, no século XIX, tornou-se a “autoridade cultural”.

O avanço da ciência é geralmente atribuído ao uso do método científico, que é um método empírico de testar ideias por meio da observação de dados mensuráveis em experimentos. Os benefícios da ciência são grandes e indiscutíveis e, infelizmente, a era moderna nos fez acreditar que ela é a mãe de todas as ciências.

Desde o Iluminismo e a reação do Romantismo, vemos uma visão dicotômica em nossa cosmovisão cultural. A mente ocidental foi dividida em dois compartimentos que lutam pela própria sobrevivência. Esses valores — e aqui não falarei de todos eles, apenas de seus representantes — são: ciência de um lado e religião de outro.

Quando se perde a percepção de que todas as coisas foram feitas e criadas para a glória de Deus (1Co 10.31), acabamos nos esquecendo de que o Cristianismo, fundamentado nas Escrituras Sagradas, mostra o exercício do senhorio de Jesus sobre todas as coisas. Uma abordagem cristã da ciência deve começar com o reconhecimento de que ela é uma forma especializada de filosofia humana.

A ciência não relata apenas questões de padrões empíricos; ela tenta formular uma visão da realidade. De acordo com essa visão da realidade, podemos desenvolver a nossa mente e conduzir por esses padrões a nossa vida. Ou seja, a ciência é apresentada como resposta metafísica para nossa realidade, molda nossa percepção epistemológica e influencia nossa ética.

A ciência deixou de ser uma serva para, por meio de seus métodos empíricos — muitos deles provisórios e transitórios —, tornar-se senhora determinante da nossa própria vida. Infelizmente, cristãos confessantes se esqueceram de que o Cristianismo, na verdade, descreve a nossa verdadeira natureza e identidade e nos mostra como viver para glorificar a Deus.

Não se esqueça: a ciência não é necessária para conhecer e glorificar a Deus. A revelação especial, as Escrituras Sagradas — essa sim — permanece como nosso guia e autoridade suficiente para nossa vida (2Tm 3.16).

A ciência não cristã, no entanto, propõe pensamentos contrários ao evangelho; ela é antitética, antagônica à Palavra de Deus. Qual o motivo de ela ser assim? Porque os adeptos desse tipo de ciência operam em rebeldia contra Deus, que se faz conhecido por meio da revelação geral e especial.

Como homens inimigos de Deus, esses cientistas tentam explicar o mundo natural sem referência ao seu Criador, negando Deus e sua revelação. As explicações naturalistas para o mundo não são coisas de agora; porém, muitos adeptos da ciência pura não sabem disso.

Filósofos como Epicuro (341–270 a.C.), Demócrito (fl. c. 400 a.C.) e Lucrécio (95–55 a.C.) já propunham explicações materialistas para a origem do mundo. Eles afirmavam que toda a complexidade e beleza do mundo surgiram por meio de interações da matéria e da energia de acordo com leis naturais.

Eles já diziam que todo ser vivo, incluindo os seres humanos, é produto de processos materiais ao longo de longos períodos. Essas afirmações são resultado de um sistema filosófico antibíblico, ateu, impessoal e irracional associado à doutrina da evolução. É imprescindível reconhecer que muitos cientistas, sem perceber, operam com padrões da revelação de Deus, usando “capital roubado” do Criador.

Os cientistas acreditam em padrões regulares, em leis científicas, lógica e racionalidade. Eles não afirmam isso explicitamente, mas, subjetivamente, suas ações mostram que há padrões na criação, os quais apontam para a presença de um Criador e Senhor. A ciência é serva de Deus e dos padrões regulares das Escrituras. Portanto:

1) Cientistas agem com autoridade delegada. O empreendimento científico é enraizado na bênção e no mandato cultural de Deus (Gn 1.28-29; 2.15). Em Pv 25.2 diz: “A glória de Deus é encobrir as coisas, mas a glória dos reis é esquadrinhá-las”.

Deus deu notável conhecimento sobre plantas, animais, aves, répteis, poemas e composições a Salomão. Ele foi o maior sábio mencionado nas Escrituras. A ciência tem nobreza e honra, mas trata-se de uma honra dada ao Criador.

2) Os cientistas podem investigar a natureza com racionalidade. O Cristianismo, especialmente em Gênesis, oferece uma base fundamental para a ciência. No entanto, o cientista deve se manter humilde na presença do Senhor.

O Senhor faz inúmeras perguntas a Jó (Jó 38–42) para que ele se lembrasse de sua fraqueza e de quem ele era.

3) A ciência deveria perseguir o conhecimento na dependência da oração. Embora o campo de estudos dos cientistas seja a revelação geral, e não a especial, o Senhor continua sendo o seu Mestre.

Isaías fala de Deus instruindo o agricultor e dando ao homem o conhecimento do campo para que ele trabalhe na terra (Is 28.26,29). As Escrituras são o fundamento para a ciência e para qualquer argumento que tente contrapor a verdade.

O alvo da ciência — e o nosso — deve ser a submissão a Cristo. A glória de Deus deve ser vista em tudo o que fazemos. Precisamos orar a Deus em tudo o que vamos fazer, conforme o salmista nos ensina (Sl 8.3-4,9).

Devemos nos maravilhar com a grandeza do Criador e saber que tudo está sob seu controle. Nossa vida é regida, primariamente, por sua Palavra. “Ó Senhor, Senhor nosso, quão magnífico em toda a terra é o teu nome”.

Johannes Kepler (1571–1630) disse: “Até na astronomia o meu trabalho adora a Deus”. Trabalhemos, em todas as áreas de nossa vida, com esse propósito.

 

Pr. Nelson Gonçalves de Abreu Júnior

Mestre em Teologia Sistemática pelo Centro de Pós-graduação Andrew Jumper, pastor na Igreja Presbiteriana Betânia de Cuiabá e professor de Teologia Sistemática do IBAA, em Cuiabá–MT.